terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Mato Grosso de onde ? ( II )


Confusão com os nomes dos estados de MT e MS é constante, e não faltam teorias para tentar explicar porque isto acontece. Tentando entender o motivo, talvez consigamos resolver o problema, que tanto incomoda os sul-mato-grossenses  (e mais ninguém, convenhamos).

Pelo viés aqui observado,  existem algumas considerações que nos levam a concluir que existem erros na nomenclatura do estado, surgida às pressas na época da divisão, erros de ordem lingüística, geográfica e por fim, histórica.

As barreiras naturais impediram a entrada do homem civilizado no sul do Mato Grosso, que só despertou interesse dos portugueses quando os espanhóis começaram a adentrar por estas plagas.  Entretanto, muitas  tentativas de povoamento dos europeus foram frustradas devido a outro fator de risco, mais incontrolável, inesperado e  brutal: a Nação Guaicuru.

Os Guaicurus eram (são) uma raça indígena essencialmente guerreira, que matava sem dó e aprisionava seus inimigos para escravizá-los (!).  Não admitiam intromissão no seu “reino”, e reagiam com violência terrível usando sua cavalaria contra povoados, caravanas, exércitos;  até o Forte Coimbra caiu, ante sua fúria.  Eram os “guerreiros mongóis” do Pantanal.

Ao norte, quem dominava eram os Paiaguás, também uma nação indígena guerreira, especialista no combate fluvial, com suas canoas de alta performance.

Durante anos Guaicurus e Paiaguás  foram aliados,  mas esta aliança se enfraqueceu com o tempo e, assim como espanhóis e portugueses, tornaram-se inimigos mortais. “Vez em quando se encontravam pelos rios da América”... e a borduna comia solta.

Com efeito, o sede do governo de Mato Grosso se chama Palácio Paiaguás; já a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul tem por nome Palácio Guaicurus.

Espanhóis e portugueses, Guaicurus e Paiaguás: sul e norte há muito tempo tem suas diferenças e seus "desentendimentos".

Contando este período, depois a  Guerra do Paraguai, vemos que o sul de Mato Grosso teve pouquíssimo tempo de tranqüilidade e paz. No mais, muito sangue jorrou por este chão, sempre por dominação territorial.

Eis então que chegamos a  1932, quando os mato-grossenses do sul se aliaram aos paulistas na Revolução Constitucionalista, objetivando a emancipação do seu território (não “divisão”) do estado de Mato Grosso.

Como se diz na fonteira, daí o  pau torou. Três mil homems foram mobilizados para o combate e por pouco, muito pouco mesmo, Aquidauana não foi bombardeada pelos aviões de Getúlio Vargas. Resultado: por 90 dias, foi estabelecido o Estado de Maracaju. Livre e soberano.

Em suma, Mato Grosso do Sul integra-se ao seleto clube de estados brasileiros que chegaram a pegar em armas pela sua independência, assim como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e  Acre (os que eu lembro).

Legal, né ?

Cada vez que alguém confunde o Mato Grosso do Sul com Mato Grosso, os guaicurus e os constitucionalistas se remexem em seus heroicos túmulos.

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Não é a toa que ficamos chateados  quando confundem nosso nome,  em rede nacional. Temos uma geografia impactante e uma história extremamente rica, diferenciada de qualquer outra. Depende somente de nós e de mais ninguém resgatarmos nossa  dignidade e cidadania.

Outra coisa interessante: nosso feriado cívico principal (e único) se chama “Divisão do Estado”.  A gente não foi “criado”, foi  dividido (?).  Comemora-se no dia 11 de outubro, que ultimamente serve só pra prolongar a Semana do  Saco Cheio. 

Parada militar, desfile de bandas escolares  e comemoração para quê, e para quem,  já que todo mundo viaja ? Por mim, o feriado estadual de MS seria 9 de julho,o Dia da Revolução, assim como é em São Paulo.

No final, é assim mesmo: vez por outra confunde-se o nome de Mato Grosso do Sul com Mato Grosso, todo mundo se indigna, dê-lhe “mimimi” em Redes Sociais, depois nos esquecemos do assunto... pelo menos até que  a próxima novela ou programa de auditório esfregue na nossa  patriótica cara que, para muita gente no Brasil, simplesmente não existimos.


Enfim,  enquanto alguns amarem mais um NOME do que uma TERRA (com suas belezas) e um POVO (com suas conquistas), ninguém vai nos reconhecer. Nem nós mesmos.  


PS: Dedicado ao amigo Luiz Eduardo Parreira, de quem aguardamos ansiosamente o lançamento do livro (deguste: http://tudoporsaopaulo1932.blogspot.com.br/2010/07/e-o-sul-de-mato-grosso-foi-as-armas.html)  

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