Cena 1: moça vestida de forma muito recatada, que veio do
interior, trabalhando na loja mais chique da novela das 7. Eis que
perguntam de onde ela veio. A secretária
responde: de Campo Grande, no Mato
Grosso.
Cena 2: atacante pede música no Fantástico por que, segundo
Thiago Leifert, marcou três gols no Morenão em Campo Grande, pelo campeonato “mato-grossense”.
Pronto: lá vem os sul-mato-grossenses espumando de ódio
contra a falta de cultura geral do mundo.
Mesma história, mesmo enredo, mesmo desfecho, em épocas
diferentes: desde 1977 esta mesma
ladainha. Com razão, claro. Ninguém gosta de ser confundido com o que não é
(mesmo que um dia já tenha sido).
Deduzimos, óbvio, que alguma coisa está errada. Como é
possível que o Brasil inteiro ainda não aprendeu que Mato Grosso e Mato
Grosso do Sul não são o mesmo estado,
depois de 35 anos ? Gente letrada,
doutores, escritores, músicos, jornalistas, sempre caem no mesmo erro.
Muitas teses “não-acadêmicas” tentam explicar tal fato. A mais difundida é que os brasileiros não
gostam de ler, o ensino é ruim, etc.
Verdade? Em termos: o dia que o
campeonato tocantinense for confundido com o
goiano, a gente sai às ruas soltando fogos.
A teoria que mais me convence é aquela que choca os mais
puristas, os defensores do legado divisionista, os baluartes da sociedade do
sul de Mato Grosso. Para mim, e um pequeno
bando de malucos subversivos, o nome do
nosso estado está errado. Só isso.
As histórias contadas pelos antigos mostram que nosso nome
foi escolhido meio às pressas, para aproveitar um momento político propício no
regime militar. Políticos da atual capital queriam Campo Grande, do interior
sulista queriam Maracaju, e os de Cuiabá
queriam mesmo era ver o circo pegar fogo.
Foi quando Geisel apertou, no estilo dócil já conhecido dos generais:
“ou vocês se entendem quanto à este nome ou não assino lei nenhuma, e fica tudo
do jeito que está”. Fecharam em Mato
Grosso do Sul. Mais ou menos assim.
O resto já é notório: uma “divisão” que gerou um estado “do
Sul” que não tem um “do Norte”, três décadas de confusões de todo tipo que
segundo alguns atrapalham até nossa economia, e a sonora vaia própria da nossa cultura, única
no mundo, que é entoada em uníssono pela
multidão apaixonada quando uma autoridade ou artista erra nosso querido nome
(“do Suuuuul”).
Mesmo que aprendida, a linguagem é dinâmica, intuitiva, fruto
de alguns milhares de anos de evolução humana. Na comunicação verbal, as
pessoas ouvem, repetem, fazem analogias,
e por fim apreendem (não só aprendem)
determinados termos. Desta forma, assim como as leis no Brasil (dizem), as palavras “pegam” ou “não pegam”, de forma
natural. Nomes são dados às coisas para identificá-las,
individualizá-las, diferenciar o que é daquilo que não é. Se um nome causa confusão com outro, um dos dois está errado. Isto
semanticamente falando.
Temos ai o primeiro erro que envolve nossos nomes (MT e
MS): linguístico.
Pegando o
mote, vamos ao segundo aspecto equivocado dos nomes dos estados “divididos”: o
GEOGRÁFICO. Diz o pai dos burros cibernético (a Wikipedia): “uma das principais tarefas da geografia é
dizer onde se situam as diferentes localidades do mundo e interpretar as
vantagens e as desvantagens da localização”.
Todo mundo
aprende na 4ª série (hoje mudou, deve ser no 5º ano), que uma das formas de
se batizarem os lugares é pelas características geográficas e físicas da região.
No caso, o estado de Mato Grosso
apresentava, obviamente, um mato grosso, onde os bandeirantes tinham
dificuldade de entrar para colonizar a região (leia-se explorar ouro e
escravizar índios).
Onde se
localizava este “Mato Grosso” ? Uma vez que o estado foi colonizado de cima
para baixo, de norte para sul, pela única forma possível de entrada (os rios),
este mato grosso fica na... FLORESTA AMAZÔNICA. Aproximadamente a 1.000 km de MS. Captou
?
Costumo dizer
que ninguém reinventa a roda. As
ciências possuem regras claras, estudadas, testadas inúmeras vezes, por muito
tempo, antes de serem aplicadas e
sistematizadas. Estas regras e
normatizações fazem com que fique mais fácil a interação entre as pessoas, e
nós estamos acostumados a segui-las, mesmo inconscientemente. Resumindo: nós
aprendemos mais facilmente o que é LÓGICO, e ponto final.
Existe um
outro aspecto sobre esta questão ainda mais interessante, ao meu ver, e muito
mais importante para nós sul-mato-grossenses do que para os outros: o contexto
histórico.
Merece um
texto à parte.
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