segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Mato Grosso de onde ? ( I )



Cena 1: moça vestida de forma muito recatada, que veio do interior, trabalhando na loja mais chique da novela das 7. Eis que perguntam  de onde ela veio. A secretária responde: de Campo Grande,  no Mato Grosso.

Cena 2: atacante pede música no Fantástico por que, segundo Thiago Leifert, marcou três gols no Morenão em Campo Grande, pelo campeonato “mato-grossense”.

Pronto: lá vem os sul-mato-grossenses espumando de ódio contra a falta de cultura geral do mundo.

Mesma história, mesmo enredo, mesmo desfecho, em épocas diferentes: desde 1977  esta mesma ladainha. Com razão, claro. Ninguém gosta de ser confundido com o que não é (mesmo que um dia já tenha sido).

Deduzimos, óbvio, que alguma coisa está errada. Como é possível que o Brasil inteiro ainda não aprendeu que Mato Grosso e Mato Grosso  do Sul não são o mesmo estado, depois de 35 anos ?  Gente letrada, doutores, escritores, músicos, jornalistas, sempre caem no mesmo erro.

Muitas teses “não-acadêmicas” tentam explicar tal fato.  A mais difundida é que os brasileiros não gostam de ler, o ensino é ruim, etc.  Verdade?  Em termos: o dia que o campeonato tocantinense for confundido com o  goiano, a gente sai às ruas soltando fogos.

A teoria que mais me convence é aquela que choca os mais puristas, os defensores do legado divisionista, os baluartes da sociedade do sul de Mato Grosso. Para  mim, e um pequeno bando de malucos subversivos,  o nome do nosso estado está errado. Só isso.

As histórias contadas pelos antigos mostram que nosso nome foi escolhido meio às pressas, para aproveitar um momento político propício no regime militar. Políticos da atual capital queriam Campo Grande, do interior sulista queriam  Maracaju, e os de Cuiabá queriam mesmo era ver o circo pegar fogo.  Foi quando Geisel apertou, no estilo dócil já conhecido dos generais: “ou vocês se entendem quanto à este nome ou não assino lei nenhuma, e fica tudo do jeito que está”.  Fecharam em Mato Grosso do Sul. Mais ou menos assim.

O resto já é notório: uma “divisão” que gerou um estado “do Sul” que não tem um “do Norte”, três décadas de confusões de todo tipo que segundo alguns atrapalham até nossa economia, e  a sonora vaia própria da nossa cultura, única no mundo,  que é entoada em uníssono pela multidão apaixonada quando uma autoridade ou artista erra nosso querido nome (“do Suuuuul”).

Mesmo que aprendida, a linguagem é dinâmica, intuitiva, fruto de alguns milhares de anos de evolução humana. Na comunicação verbal, as pessoas  ouvem, repetem, fazem analogias, e por fim apreendem (não só  aprendem) determinados termos. Desta forma, assim como as leis no Brasil (dizem),  as palavras “pegam” ou “não pegam”, de forma natural.  Nomes  são dados às coisas para identificá-las, individualizá-las, diferenciar o que é daquilo  que não é. Se um nome causa confusão  com outro, um dos dois está errado. Isto semanticamente falando.

Temos ai o primeiro erro que envolve nossos nomes (MT e MS):  linguístico.

Pegando o mote, vamos ao segundo aspecto equivocado dos nomes dos estados “divididos”: o GEOGRÁFICO. Diz o pai dos burros cibernético (a Wikipedia):  “uma das principais tarefas da geografia é dizer onde se situam as diferentes localidades do mundo e interpretar as vantagens e as desvantagens da localização”.

Todo mundo aprende na 4ª série (hoje mudou, deve ser no 5º ano), que uma das formas de se batizarem os lugares é pelas características geográficas e físicas da região. No caso, o estado de  Mato Grosso apresentava, obviamente, um mato grosso, onde os bandeirantes tinham dificuldade de entrar para colonizar a região (leia-se explorar ouro e escravizar índios).
Onde se localizava este “Mato Grosso” ? Uma vez que o estado foi colonizado de cima para baixo, de norte para sul, pela única forma possível de entrada (os rios), este mato grosso fica na... FLORESTA AMAZÔNICA. Aproximadamente a 1.000 km de MS.  Captou ?

Costumo dizer que ninguém reinventa a roda.  As ciências possuem regras claras, estudadas, testadas inúmeras vezes, por muito tempo,  antes de serem aplicadas e sistematizadas.  Estas regras e normatizações fazem com que fique mais fácil a interação entre as pessoas, e nós estamos acostumados a segui-las, mesmo inconscientemente. Resumindo: nós aprendemos mais facilmente o que é LÓGICO, e ponto final.

Existe um outro aspecto sobre esta questão ainda mais interessante, ao meu ver, e muito mais importante para nós sul-mato-grossenses do que para os outros: o contexto histórico.

Merece um texto à parte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário