Semana muito triste começando com a tragédia em Santa Maria,
onde morreram centenas de jovens que se divertiam numa boate. Entre indignações
de lá e explicações de cá, mais me convenço de uma afirmação que ouvi certa vez:
o Brasil é o país da gambiarra. Ou melhor: do AMADORISMO. Senão, vejamos:
Os integrantes de uma banda resolvem fazer um show
pirotécnico, mas lembram do “piro” (do radical grego “fogo”) e se esquecem do
“técnico”. Será que consultaram um
especialista neste assunto, ou algum oficial dos Bombeiros, para saber as
informações básicas sobre a segurança deste procedimento num ambiente fechado?
Duvido.
Na boate Kiss cabiam setecentas pessoas, segundo Laudos
Técnicos, emitidos para concessão de Alvará de Segurança: colocaram mil, no mínimo.
Coincidentemente, o número aproximado de pessoas que foram vitimadas na
tragédia. Obedecer à norma ? Hoje não. A galera quer se divertir, e o empresário
precisa “cobrir os custos”.
A cereja deste bolo bizarro: seguranças contratados para “segurar”
somente o lucro e o patrimônio dos contratantes fecharam as portas para o povo não sair sem pagar. Existem especialistas em segurança de
verdade, contratados para identificar reais possibilidades de morte iminente de
centenas de pessoas, mas estes são muito caros. Melhor contratar os que estão
aí. Treinamento? Para quê?
No Brasil, além de sermos milhões de técnicos de futebol, somos todos especialistas
em diversas áreas. Não precisamos de
eletricistas, contadores, bombeiros, administradores, veterinários, técnicos em
segurança, jornalistas, publicitários, advogados, engenheiros...
O governo? Só serve pra “ferrar” a gente, com este monte de
regras e taxas pra pagar. Como nada funciona mesmo, vou deixando do jeito que
está. Quando me autuarem, eu resolvo: antes, enrolo bastante. Por fim, aciono
meu advogado.
Ainda tem o lance dos prazos: meu licenciamento está
demorando, mas como eu colaborei na campanha de um vereador, ele me indicou um
“profissional do serviço público” que assina sem vistoriar. Não sai tão barato,
mas eu preciso trabalhar e ganhar dinheiro. Ele só precisa assinar, uma vez que
eu fiz tudo certo. Entendo deste assunto.
Assim somos nós. Optamos pelo mais barato acreditando nas probabilidades, estatísticas e principalmente
na nossa sorte. Vamos atrás do mais
cômodo porque, mesmo sem capacidade, tempo ou dinheiro, queremos “empreender”.
Se não for assim, fica difícil trabalhar neste país, nosso lucro fica pequeno e
não dá pra ir à Nova Iorque uma vez por ano (no máximo, até Bariloche).
O brasileiro não respeita quem é profissional, mas adora reclamar
que não existe profissionalismo neste país.
Uma veterinária que eu conheço precisou colocar um cartaz no consultório
dela: “Consulta R$ 50,00. Olhadinha, R$ 300,00”. O número de atendimentos caiu.
Temos ainda nossos amigos. Acham que podemos fazer o
impossível por eles (por que merecem, claro), quando não nos pedem de graça a única coisa
que podemos lhes vender: nossa aptidão profissional, adquirida com alguns anos
de suores e investimentos. Estes tempos atrás elaboramos um documento para um
“amigo” destes. Ele perguntou o preço:
R$ 350,00. “Nossa, tudo isso por uma simples folhinha de papel?”. Não, o papel
saiu por quatro centavos. A diferença é pela
minha assinatura.
Você opta pelo mecânico mais barato, pelo eletricista mais
em conta, pelo advogado que cobra menos que o recomendado pela tabela da sua
categoria profissional, acreditando que está levando vantagem e não vai ter
problemas no futuro. E vamos que vamos. Vem Copa do Mundo, Olimpíadas, obras fora
do prazo, projetos refeitos. Na hora a gente ajeita.
Como diz a sabedoria popular, que sempre reflete com
perfeição alguma Lei Universal: o barato demais sempre sai caro demais. E algum
dia alguém paga a diferença.
Deus nos livre de nossa ganância.


